O que poderá explicar variações tão acentuadas nos ácidos gordos do leite de porca ?

Rui Silva, está de parabéns porque defendeu esta segunda-feira o seu trabalho de Mestrado sobre o efeito do ácido 2-Fenoxi, 2- Metil-propiónico em porcas em lactação e subsequentemente no crescimento dos leitões. A tese poderá ser lida em breve no repositório da FMV, após efetuadas as correções propostas pelo júri. Neste trabalho, o Rui colheu amostras de leite de 20 porcas nas quais, entre outras análises, foi feito o perfil de ácidos gordos (AG) no nosso laboratório. Encontra-se na bibliografia vários artigos com informação sobre a composição em AG de porcas, mas não demasiados. No que me diz respeito, foi a primeira vez que analisei leite de porca. O que encontrei de mais estranho na composição em AG do leite de porca, foi a enorme amplitude dos teores de ácido palmítico (C16:0) que variou entre 20,9 e 36,1 % do total de AG, e do ácido oleico (C18:1 cis-9), que variou entre 27,5 e 48,2% do total de AG (Figura 1).

leiteporca

(nota, círculos vermelhos são porcas controlo; circulos azuis porcas tratadas com fibrato)

 

Amplitudes desta magnitude não são observáveis em leites de vaca, ovelha e cabra. Estas variações não tinham relação nenhuma com o tratamento em estudo, paridade, dieta ou genótipo das porcas, pelo que nem são discutidas na tese. Contudo fica claro que existem porcas que sintetizam ácido palmítico na glândula mamária, não prosseguindo de forma eficaz ao seu alongamento e dessaturação até ácido oleico (pontos no canto inferior direito da figura), enquanto outras porcas serão muito eficazes na produção de ácido oleico (pontos no canto superior esquerdo da figura). Claro que haverá explicações alternativas, nomeadamente envolvendo graus de mobilização de ácidos gordos depositados nos tecidos e/ou transferidos da dieta. Contudo, falta demasiada informação relevante, como a condição corporal e a ingestão das porcas, para que se possa tentar interpretar esta plasticidade de forma consequente. Mas que dá que pensar, dá. São bem vindos comentários.

 

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Determinação rápida da composição em ácidos gordos do leite por FT-MIR

A análise do leite para efeitos de contraste leiteiro e de pagamento ao produtor há muito que é efetuado com recurso à espectroscopia de infravermelhos e a técnicas de calibração multivariadas. Esta metodologia revolucionou a indústria leiteira e os programas de melhoramento animal. O princípio é muito simples. Há uma emissão de luz da gama de infravermelho para a amostra de leite que irá por sua vez emitir a radiação que não absorver, gerando assim um espectro (Fig. 1). Os espectros gerados dependem da concentração de componentes do leite. Assim, após um processo de calibração onde num determinado número de amostras se determina quer o espectro IR gerado quer a composição do leite determinada por métodos clássico é possível utilizando técnicas de calibração multivariada (em geral PLS – partial least squares regression) estimar a composição do leite. Este é exatamente o mesmo principio da análise de alimentos por espectroscopia NIR (Near InfraRed).

 

 IR - Bentley

 

Fig. 1 - Esquema de funcionamento básico de um espectrometro IR (retirado de folheto promocional do FTS Combi da Bentley)

 

Inicialmente os equipamentos eram do tipo dispersivo e utilizavam a luz MIR (Mid InfraRed) e as calibrações foram desenvolvidas para a gordura, proteína, lactose e sólidos totais. Os equipamentos têm evoluído (são agora FT-MIR) o leque de calibrações têm sido estendidas de modo a incluir a ureia, ácido cítrico, caseínas e muito recentemente ácidos gordos individuais ou grupo de ácidos gordos.

Confesso que esta semana fiquei surpreendido com o facto de estes equipamentos já disponibilizarem comercialmente calibrações para alguns, ainda poucos, ácidos gordos no leite. Tenho acompanhado as tentativas de estimar a composição de ácidos gordos do leite por métodos FT-MIR, desde que em 2006 um grupo da Universidade Liège publicou um primeiro trabalho (Soyeurt et. al., 2006), ao qual se seguiram muitos outros (o último da série é até à data, Soyeurt et al., 2011). Por volta dessa altura submeti um projeto à FCT em que se pretendia explorar as bases para o desenvolvimento de um programa de seleção em vacas leiteiras altas produtoras de CLA. O projeto envolvia naturalmente especialistas em genética quantitativa (Nuno Carolino e Julio Carvalheira) e como seria necessário processar milhares de amostras de leite, uma das tarefas previstas, em parceria com a Universidade de Aveiro, era precisamente desenvolver calibrações para estimar o CLA no leite usando os espectros FT-MIR obtidos durante o contraste leiteiro. Bom, o projeto foi chumbado, mas nunca me esqueci destas ideias.

A disponibilização destas calibrações nos equipamentos industriais de análise de leite como o Milkoscan FT+ da Foss, o Combiscope da Delta Inst., e o FTS combi da Bentley, irá permitir acumular por rotina informação muito relevante que poderá ser integrada em estratégias de selecção animal ou segmentação de produtos. O que é oferecido ainda é muito incipiente e insatisfatório (o C16:0, C18:0, C18:1 e os totais de saturados, mono e poli insaturados), mas claramente o futuro passará por aqui. Claro, que nunca nos poderemos esquecer que estes métodos estimam concentrações e tem de ser calibrados com os métodos de referência, que no caso dos ácidos gordos é a cromatografia gasosa.

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Dois novos elementos na equipa do LMLR

Foram ontem divulgados os resultados do "Concurso para a atribuição de Bolsas Individuais de Doutoramento e Pós-Doutoramento 2012". As notícias foram muito boas para a Mónica Costa e a Olinda Guerreiro, que irão brevemente iniciar os seus trabalhos de doutoramento na nossa equipa. A Mónica Costa, actualmente bolseira de investigação no CIISA, irá sob minha orientação estudar o modo como os taninos e a suplementação lípidica afectam a bio-hidrogenação ruminal dos ácidos gordos polinsaturados com um plano de trabalho intitulado "Modulation of rumen biohydrogenation through polyunsaturated fatty acid overload and tannins" A Olinda Guerreiro dividirá o seu tempo entre o CIISA e o CEBAL e irá prosseguir e aprofundar os nossos trabalhos sobre o efeito da inclusão de esteva na alimentação de ruminantes na bio-hidrogenação e composição em ácidos gordos da carne. O plano de trabalho intitula-se "Inclusion of Cistus ladanifer in ruminant diets : An approach to improve the nutritional value of edible fats" e a equipa de orientação é coordenada por mim com a inestimável participação das investigadoras Eliana Jerónimo e da Fátima Duarte, ambas do CEBAL. Parabens à Mónica, Parabens à Olinda. Espera-nos muito trabalho pela frente.

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Arranque do Blog da LIPIDANIMAL

Caros colegas e amigos

Este é primeiro post do blog do site LIPIDANIMAL. Se o projecto for bem sucedido e contar com a vossa adesão este post  será certamente o primeiro de muitos. A ideia de adicionar um blog ao LIPIDANIMAL é incentivar todos vós a partilharem as vossas reflexões, projectos, novidades, ideias e trabalhos que vão realizando e que de algum modo envolvam lípidos e animais de interesse veterinário. O projecto do site LIPIDANIMAL em si, é mais ambicioso. Nesta primeira fase pretende-se dar uma visibilidade integrada das actividades e "expertise" nesta área científica das diversas equipas do nosso centro de investigação - o CIISA. Pretende-se ainda criar um repositório do conhecimento acumulado, que de algum modo não seja possível obter apenas lendo os artigos científicos publicados. Assim, questões metododológicas, reflexões e interrogações sobre temas específicos e mesmo já erros cometidos, serão a seu tempo partilhados. Numa segunda fase do projecto, pretende-se alargar o site a todas as equipas nacionais e internacionais que colaboram estreitamente com as equipas do CIISA. Estas equipas serão desde já convidadas especiais, com estatuto de observadoras, mas pretendemos que sejam membros de pleno direito e que o LIPIDANIMAL possa funcionar como embrião de uma rede temática. A terceira fase, já no campo do futurismo utópico, seria o LIPIDANIMAL desempenhar este papel a uma escala global. Sonhar não custa. Em todo caso, se pelo menos a primeira fase for atinginda, já valerá a pena.  

O projecto LIPIDANIMAL em rigor está a renascer. A primeira tentativa foi feita há uns 8 anos atrás, no laboratório de metabolismo lípidco da antiga Estação Zootécnica Nacional, com site www.lipidanimal.net. Os objectivos genéricos  eram os mesmos. Este site está agora offline, e na realidade nunca esteve verdadeiramente acabado e com actividade regular. Tentaremos não cometer os erros do passado. Parte das dificuldades estão ultrapassadas, desde logo a dificuldade da plataforma informática utilizada à data e falta de massa crítica - eramos poucos. 

Esta nova tentativa só terá sucesso se vocês a sentirem como útil e também como vossa. Estamos abertos a sugestões, comentários e ajuda na elaboração de conteúdos.

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